Ergonomia e Usabilidade

Este artigo é uma resenha (entregue) do livro “Ergonomia e Usabilidade”, de Walter Cybis como trabalho acadêmico. Estou compartilhando-o aqui por me interessar pelo assunto, assim como grande parte da comunidade livre.

————————————————————————————–

Usabilidade é uma palavra que entrou em rodas de bate-papo entre amigos e entusiastas de tecnologia depois dos esforços da Apple em tornar seu Desktop e seus aplicativos mais práticos, fáceis e “usáveis”, associando o bom gosto de uma aparência bem desenhada com os requisitos de usabilidade que um sistema deve ter.

Requisitos de usabilidade e ergonomia, na verdade, fazem parte de um enorme campo, que engloba desde a adequação do sistema ao usuário, quanto à disposição dos ícones em uma tela ou aplicação. Sua “medição” pode ser feita através de uma avaliação heurística. A avaliação heurística, segundo Nielsen (1994) deve obedecer as seguintes qualidades:

  • Visibilidade do estado do sistema;

  • Mapeamento entre o sistema e o mundo real;

  • Liberdade e controle ao usuário;

  • Consistência e padrões;

  • Prevenção de erros;

  • Reconhecer em vez de lembrar;

  • Flexibilidade e eficiência de uso;

  • Design estético e minimalista;

  • Suporte para o usuário reconhecer, diagnosticar e recuperar erros;

  • Ajuda e documentação.

A avaliação toma como base “Padrões de usabilidade gerais”, que podem ser próprios ou desenvolvidos por especialistas na área.

Shneiderman propôs oito regras em seu livro “Designing the User Interface”. Tais regras refeririam-se especificamente às interações humano-computador. São elas:

  • Perseguir a consistência;

  • Fornecer atalhos;

  • Fornecer feedback interativo;

  • Marcar o final dos diálogos;

  • Fornecer prevenção e manipulação simples de erros;

  • Permitir o cancelamento de ações;

  • Fornecer controle e iniciativa ao usuário;

  • Reduzir a carga de memória de trabalho.

Existe também uma norma internacional (ISO 9241:10 de 1998) que propõe em sua decima parte os “Princípios de Diálogo”. São sete princípios de interfaces humano-computador para aplicações de escritório.

  • Adaptação à tarefa;

  • Auto-descrição (feedback);

  • Controle ao usuário;

  • Conformidade às expectativas do usuário;

  • Tolerância aos erros;

  • Facilidade de individualização;

  • Facilidade de aprendizagem.

Além dos critérios de usabilidade, existem também os critérios ergonômicos. Tais critérios foram desenvolvidos pela dupla de pesquisadores franceses Dominique Scapin e Christian Bastien, os quais propuseram em 1993 um conjunto de oito critérios ergonômicos principais, que por sua vez, subdividem-se em 18 subcritérios e critérios elementares. O objetivo é a minimização de ambiguidades na identificação e classificação das qualidades e problemas relacionados à ergonomia de softwares interativos.

O objetivos de tais estudos, centrados no usuário, visa reduzir a carga de esforço mental, visual e físico, reduzindo entradas desnecessárias, oferecendo valores default, exibindo mensagens de erro de fácil compreensão, fornecendo atalhos de ajuda de fácil acesso, feedback imediato das ações realizadas no computador, quer elas tenham sido concluídas ou não, agrupando elementos de acordo com sua funcionalidade ou seguindo algum critério lógico (intuitividade) por localização ou por formas e cores, legibilidade, que define altura, largura e contraste de tela de fundo.

Também compreende o controle do usuário e flexibilidade, que deverá fornecer ao usuário diferentes maneiras de completar uma mesma tarefa (teclado, mouse ou outro tipo de entrada), opções de formatos de arquivos e caminhos para se chegar a uma funcionalidade frequentemente utilizada.

A experiência de usuário deve ser é um critério aplicável quando e houverem usuários de diversos níveis de experiência, que não possuem exatamente a mesma necessidade de carga informacional. Usuários experientes podem retroceder a uma condição de inciante após longos períodos sem praticar o uso do sistema.

A gestão de erros deve ser constantemente avaliada durante o projeto do sistema, afim de evitar problemas através da proteção do usuário nas interações que possam provocar erros, como alertar sobre o risco de perda de informação em caso de não-gravação de dados ao final de uma sessão, ou não oferecer algum comando destrutivo como opção padrão.

Mensagens de erro devem indicar a natureza do erro, sua correção, a forma correta de utilização a fim de se evitar tal e as ações que o usuário deve tomar para sair daquele erro. Também devem ser neutras.

Relacionados aos erros, ainda há a correção de erros. Um sistema eficiente deve prover a capacidade de desfazer e refazer ações e ainda fornecer um atalho para a área onde o erro for detectado para sua correção

Um critério indispensável para a usabilidade é a hegemonia da interface. Um sistema que atende aos requisitos de usabilidade deve ter sua apresentação, a distribuição e a denominação de objetos nas telas padronizadas. Deve também utilizar os mesmos procedimentos para obter os mesmos resultados, sendo este último uma padronização da sintaxe dos procedimentos, além de códigos e denominações terem possuírem contextos idênticos.

Significado dos códigos e denominações é um dos critérios que acompanha o critério Hegemonia. Este critério é um importante aliado dos usuários iniciantes em um sistema, assim como os intermitentes e diz respeito à adequação entre o objeto ou a informação apresentada ou e sua referência na interface. A recordação dos elementos do sistema e sua interface é mais fácil quando a codificação for significativa. Isso evita, por exemplo, a escolha de opções erradas em uma interface.

Finalmente, o critério compatibilidade deve ser compatível com o usuário, com a tarefa e com o ambiente em que o sistema estiver sendo executado.

Quando levada em consideração a compatibilidade com o usuário, um sistema que atende a este requisito deve ser eficiente sem que haja a necessidade de qualquer alteração de quaisquer características do sistema. Devem ser levadas em conta a compatibilidade em termos de cognição, demográficos, culturais, de competência e de expectativas, assim como as psicológicas.

Compatibilidade também deve ser observada em nível de plataforma. Um, software deve apresentar o mesmo comportamento esperado em todas as plataformas em que estiver presente.

Traduções, transposições, referências, medidas, etc., devem ser compatíveis com a cultura e o vocabulário do usuário.

Problemas de usabilidade ocorrem durante a interação, atrapalhando o usuário na realização de sua tarefa, contudo, tais problemas são originados na em problemas de ergonomia de interface.

Ergonomia

A ergonomia pode ser definida como a adaptabilidade de um determinado dispositivo ao seu utilizador e consequentemente à tarefa que este realiza. Já a usabilidade pode ser percebida quando o usuário emprega o sistema para alcançar seus objetivos em uma determinada operação, que pode ser caracterizada pelo nível de eficácia, eficiência e satisfação proporcionados ao usuário durante seu uso.

A capacidade que os sistemas conferem a diferentes tipos de usuários para alcançar seus objetivos é definida como Eficácia. A quantidade de recursos que os sistemas solicitam aos usuários (como esforço físico, cognitivo e tempo) para a obtenção de de seus objetivos com o sistema é medida como Eficiência, Já a Satisfação é relacionada à emoção que os sistemas proporcionam aos usuários frente aos resultados obtidos nos dois quesitos anteriores.

Problemas de ergonomia podem ser identificados quando algum aspecto da interface está em desacordo com as características dos usuários e pela maneira que o mesmo realiza sua tarefa. Aspectos inadequados na interface, desrespeito aos critérios de ergonomia e contexto de operação.

Problemas de usabilidade são observados em determinadas circunstâncias, quando uma característica do sistema ocasiona perda de tempo, comprometimento ou inviabilização da realização da tarefa. Tais problemas podem aborrecer, constranger ou até mesmo traumatizar um usuário.

Existem alguns tipos de problemas comuns identificados em usabilidade. Tais problemas podem ser classificados como barreira, obstáculo e ruído.

Um ruído é um problema de usabilidade que, embora possa ser menos danoso que um obstáculo ou uma barreira, provoca a uma redução no desempenho da tarefa executada pelo usuário. Este tipo de problema pode causar um desconforto ao usuário durante a utilização do sistema, causando a sensação de que “algo está fora do lugar” ou uma má impressão do sistema (um aspecto subjetivo).

Um obstáculo é um nível mais elevado de ruído. “Refere-se a um aspecto da interface no qual o usuário esbarra algumas vezes, mas aprende a suplantá-lo”. Algo que o usuário de acostuma a fazer ou ver para continuar utilizando o sistema.

Obstáculos podem ser suplantados através de “workarounds”, aplicação de patches, modificação manual de aspectos da interface, ou outros métodos.

Alguns tipos de obstáculos farão o usuário levar um tempo para descobrir a forma de proceder frente a ele. Mesmo assim, o usuário poderá se enganar em todas as outras vezes que se encontrar na mesma situação.

A barreira é um aspecto terrivelmente ruim. Tão ruim a ponto ser capaz de levar o usuário a deixar de utilizar um sistema ou uma função de um sistema temporária ou definitivamente, pois inviabiliza o desempenho da tarefa do usuário. É o tipo de problema que o usuário esbarra sucessivas vezes e não consegue suplantá-lo sem uma ajuda externa. Uma barreira, além de causar prejuízos tanto para usuários quanto para os projetistas do sistema.

Os problemas citados acima podem ser classificados como geral, especializado, de intuitividade ou de acessibilidade, tomando como base o tipo de usuário que tal problema afeta.

Geral é um aspecto de interface que atrapalha qualquer tipo de usuário durante a realização da tarefa.

Especializado é um problema de interface que atrapalha o usuário especializado durante uma tarefa.

De intuitividade é um aspecto da interface que atrapalha o usuário novato ou intermitente durante a realização de sua tarefa.

De acessibilidade é um aspecto da interface que atrapalha a utilização do sistema por pessoas com necessidades especiais, mas que aos não-portadores de tais necessidades, não chega a causar algum tipo de desconforto.

Dos problemas de usabilidade apresentados acima, todos podem ser atribuídos ao projeto do sistema, contudo, existem duas categorias de problemas que poderão tornar uma avaliação ou revisão de projeto invalidada. São as categorias falso e novo problema.

O falso refere-se a um aspecto da interface que, apesar de ser classificado como problema de ergonomia, não traz problemas ao usuário, tão pouco a realização de sua tarefa. Pode ser atribuído ao avaliador por sua falta de conhecimento sobre as condições de contexto, incluindo as reais características do usuário.

O novo pode ser atribuído a uma nova configuração ou aspecto da interface que passa a representar um problema de usabilidade caso haja uma revisão equivocada no projeto.

Avaliação ergonômica de interfaces

Dados os problemas acima e a necessidade de se avaliar a construção das interfaces e a reação dos usuários a ela, foram desenvolvidos métodos de avaliação de ergonomia das interfaces. Tais avaliações podem ser classificadas como:

  • Avaliações Analíticas – utiliza o método GOMS (Goals, Operators, Methods and Selections Rules) e visa predizer um tempo das ações físicas e cognitivas associadas à forma correta de realização de uma tarefa. Este método é empregado pela empresa Canonical na avaliação das interfaces de seu Sistemas Operacional Ubuntu.

  • Avaliações heurísticas – é uma avaliação efetuada por especialistas em ergonomia com base em sua experiência no assunto. Os profissionais examinam a interface e diagnosticam problemas ou barreiras que os usuários poderão encontrar durante a interação.

  • Inspeções por listas de verificação – permite que profissionais que não sejam especializados em ergonomia possam identificar problemas menores e repetitivos de interação com as interfaces, como ruídos. Uma das vantagens deste tipo de abordagem é a redução de custos, visto que não é necessário a contratação de especialistas.

Como pode ser visto, usabilidade não é simplesmente uma tela bonita e acessibilidade não é apenas o posicionamento dos ítens na tela.
Este assunto poderá ser abordado mais adiante. Aguardem novidades.

Abraço,

Anúncios

7 opiniões sobre “Ergonomia e Usabilidade”

  1. Cara muito bom o texto, usabilidade é um assunto muito falado no meu trabalho, sempre é uma dúvida isso é fato, esse texto ajudou a esclarecer sobre o assunto.

    Valeu.

  2. Interessante a abordagem sobre o assunto e a elaboração do texto explicando o que significa a usabilidade por meios mais simples.

  3. Boa noite , estou cursando o curso de agroindústria a distancia e na disciplina de informatica temos um trabalho sobre blogs que falam sobre software e hardware . neste blogs tirei varias duvidas que tinha sobre o assunto.

  4. Kadu,

    Gostaria de sua aprovação para usar sua resenha como referência em um material que preciso entregar em meu local de trabalho. Se possível, transcrevendo alguns trechos. A sua autoria (fonte) será devidamente mencionada.

    Att,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s