Harry Potter e a Ciência

Olá Geeknautas,

Estou de volta e gostaria de falar sobre a série de filmes do bruxo Harry Potter. Nosso chefe de redação, Carlos Eduardo postou os traillers do Harry Potter 7-2 às vésperas da estréia aqui em Vitória City / ES mas não comentou nada sobre o final da saga. Isso não pode. Que vontade de soltar um xingamento: “Francamente, POXA!” – Não falar sobre uma série extremamente comercial, famosa e geek. Mas ele não sabe que ele me deu o melhor presente. Falar sobre Harry Potter, para mim, é como pedir pra um médico falar sobre a cirurgia mais bem sucedida de sua vida ou pedir a um professor para falar sobre o assunto que ele mais domina dentro de sua área. Um pequeno adendo antes: Se vou falar sobre a saga do bruxo mirim, quero puxar a sardinha pro meu lado: CIÊNCIAS.

Harry Potter é um triunfo da literatura, da J.K. e do coméricio, uma vez que HP é mais comércio do que literatura propriamente dita. Peço licença pra falar mais do livro do que do filme. O livro evidencia muito mais uma sociedade consumista do que um mundo de fantasia. Não é o melhor e o fino da bossa em se tratando de uma obra de fantasia e magia. Não se cria aí uma cosmologia literária independente, não se constrói um universo parelelo. Muitas vezes o bruxinho precisa ou quer ir comprar um livro novo numa feira livre como as de Liverpool; algumas vezes ele quer sair pra se descontrair e tomar uma cerveja amanteigada com os amigos pra discutir os problemas; Em torneios de Quadribol , o aluno mais popular é aquele que tem a vassoura voadora mais veloz ou a mais nova: seja ela uma Nimbus 2000 ou uma Firebolt; típico da adolescência e juventude consumista e ocidental.

Harry Potter e o Cálice de fogo

Adolescentes adoram reforçar a idéia de que ter é melhor do que a idéia de ser. É mais vantajoso e traz mais situações agradáveis, existem mais vantagens quando se tem e não quando se é. A saga do pobre caucasiano rico traz ao mundo essa vontade não declarada de crianças, jovens e adultos. Tudo tem a ver com a vida de Londres: a polidez, os chás, a formalidade e a altura do observador que separa crianças dos adultos. Nada está separado da vida comercial, cultural e atual. A gerência de uma escola está tão conectada à política que até as crianças tomam consciência da mesma através de jornais que chegam em bicos de corujas pela manhã. Bicos – que irônico.

Desde o primeiro livro a saga já se anunciava como um modelo padrão para leitura fácil mas estávamos em 2000, o livro tinha acabado de ser lançado num Brasil em recessões e crises econômicas de um governo truncado. Se um livro chega no nosso país em meio a essa fase e alcança sucesso de leitura, despertando a mania de literatura em aventuras fantásticas, no mínimo, a história e a proposta merece aplausos. Tolkien já estava espalhando suas emanações em meio a um baixo percentual de jovens intelectualizados e/ou jogadores de rpg. Não se falava em uma cultura literária adolescente em massa. Stephanie Meyer ainda não tinha virado a chata e a banda podre dessa turma.

Harry Potter começou bancando a Cinderela de shorts e camiseta: acordava em um cômodo apertado que correspondia a um mini galpão sob a escada da casa da família Dursley, enteados da falecida mãe de Harry. Num dia de aniversário que ele não imaginava ter, uma carta de uma escola de magia (chamada Hogwarts) e um gigante mudaram sua vida. Daí pra frente ele conhece seu mentor, teve a sorte de estar em todos os lugares estratégicos e no centro de todas as discussões com seus pares, enfrentou monstros. Daí pra frente ele conhece um arqui-inimigo e, nas obras posteriores, lugares secretos do castelo de Hogwarts, sua escola de magia. A trama se evidencia e se esclarece nos livros seguintes e perguntas são lentamente respondidas, cativando e criando um público de adolescentes e cinéfilos aficionados em magia.

Harry Potter e seus amigos num final de semana qualquer :)

Ao final da saga a disputa entre Harry e Voldemort move exércitos de bruxos e, graças a J.K. Rowling e ao capitalismo, uma fatia da sociedade desperta para o prazer da leitura. Longe de mim está o objetivo de fazer críticas negativas. Aqui guardo o espaço para crescer. Ao final disso tudo, gostaria muito de que vários leitores se perguntassem: E DAÍ? A vida não é isso? Nascer, crescer, enfrentar mais dificuldades que alegrias, vencer, multiplicar, ter filhinhos, comer macarronada com frango nos findis e deixar a vovó apertar a bochecha? Não se pode explorar nada mais do que aquilo que esteve em primeiro plano?

Talvez eu esteja me colocando no lugar daqueles autores intelectualóides que escrevem livros moderninhos pra tentar vender “Os simpsons e a filosofia”; “Matrix e a sociedade do século 21” – baboseiras bem ilustradas em megastores de livros. Se assim for, serei tão meticuloso quanto permite minha ingenuidade a começar pelo protesto: QUEM NÃO GOSTARIA DE ESTAR NO MESMO LUGAR QUE HARRY LEVANTE AS MÃOS!

Eu não quero e nunca posso desejar que os senhores, senhoras e senhoritas percam vários parentes e amigos ao longo de uma jornada do conhecimento. Não é disso que falo e, naturamente, peço que confessem – a aventura escolar deveria ser mais do que magia – aprendiz mimado consegue subir sobre ombros de gigantes, já dizia Isaac Newton, é tão corajoso a se atrever e a buscar respostas que se sente como uma flecha lançada em velocidade terminal pelos seus instrutores. E aqui, crianças de ensino fundamental e adultos que concluíram um mestrado, vão fechar os olhos e lembrar de quanta vontade tiveram de matar (ou não) aquele sujeito-professor. AQUEEEELE que fez uma lista de exercícios maior que o número de orações em um rosário; ou aquele livro com idéias, frases e páginas que o hipnotizavam e faziam a leitura durar quatro viagens pelo espaço sideral… e que depois disso era necessário voltar lá atrás e ler tudo de novo algumas vezes.

Vira-tempo

Ao entrar no curso de física, tanto quanto qualquer um dos meus colegas, eu era um Harry Potter. Burro, esquálido, franzino, duvidoso, desmotivado, rebelde, irritante (ok ok, vocês já entenderam). Relembrar o professor falando do M.R.U e das Leis de Newton era um castigo pior que ouvir o Biafra ou o tema dos Pôneis Malditos. No entanto, a gente encontra nosso Alvus Dumbledore, mais cedo ou mais tarde – Um dia, com vontade de ver um filme pornô em casa, cometer um crime digno de um nerd e dormir, tive que ir pra Ufes, entrar na sala de aula e assistir a primeira aula de física 2 (aplicações do modelo newtoniano, que doooor!!!!!). E Então aconteeu…. o Professor Rogério, com aquele nariz e olhos caolhos do Pinguim (típico de um professor de uma faculdade de Física), entrou na sala de aula, mal se apresentou e começou a contar histórias e a explicar como a gente não sabe nem mesmo o que é sólido, líquido ou gasoso e o quanto somos ignorantes abordando de modo cômico, a filosofia da ciência. Era como se eu tivesse aprendido a falar “VINGARDIUM LEVIÔÔÔÔUUSSAH” e visto um monte de coisas se desvelarem na minha frente.

Com o tempo, a ciência era tão simples e tão bela quanto o mundo da magia e eu com alguma leitura, trabalho e maturidade fui percebendo o que ficou evidente nas sábias palavras de John Dewey – um teórico do ensino de ciências: “O código de informações que faz um cientista olhar para uma coluna de mercúrio e dizer para o jornal local que vai chover é tão intrincado quanto os sagrados símbolos das runas e faz tanto sentido para o vidente quanto a hidrodinâmica faz sentido para o geólogo. Nada de estranho, então, que um ser humano desprovido dos dois códigos se entregue e desfrute do dilema de acreditar que: o universo está em expansão, ou que sua vida será melhor se sair para o cinema hoje após consultar o tarô ou a sorte ditada pela posição dos astros”.

A vida ganha toda cor e todo brilho com uma pergunta feita para as crianças: “O que você quer ser quando crescer?” – Tomar decisões ativas, conscientes e animadas de objetivos transforma todos nós em eternos bruxos. Não conheço NINGUÉM que se apaixonou pela profissão e que não tenha ótimas lembranças e experiências antes, durante e depois de sua formação básica. Entendam como formação básica o conjunto de conhecimentos que vai do fim do Ensino Médio até a conclusão do Ensino Superior.

Nessa direção, posso falar, enfim, que Harry Potter e Voldemort estavam predestinados a cumprir a profecia: “um não pode sobreviver enquanto o outro viver”. Façam as analogias que quiserem. A minha foi a paixão pela ciência e por toda magia que ela pode me proporcionar. Tão longe a ignorância deve ficar de mim e por toda vida devo combatê-la. Eis a profecia que abracei para mim. Não vou ser falso modesto e dizer que não queria ser visto com um “Merlin” da física, no início mas também devo alertar que, na grande verdade, a faculdade não ensina tanto se não buscarmos por nós mesmos a nossa aventura e nossos esconderijos secretos; e que não sou nada e que sei tanto conhecimento quanto o silício que existe em um grão de areia. Mas é com esse grão que quero começar minha jornada. Quero alertar sobre tudo o que pode ser feito com a ciência.

No dia da minha formatura, momento especial demais na minha vida, escutei as palavras de um colega chamado André Luis Alves. Hoje um físico em fase de conclusão do Mestrado em Cosmologia. No seu pronunciamento de formatura em nome da minha turma ele parafraseou um pouco Carl Sagan, o maravilhoso físico que alertou à humanidade sobre a fragilidade de nosso planeta, e, com as palavras dele (André), peço que aguardem meu retorno:

“(…)se nós físicos temos algo de utilidade prática a oferecer, talvez o mais útil seja simplesmente o exemplo da ciência em si: questionar tudo.Não importa o quão imponente, convincente ou profética seja uma afirmação, não importa o quão importante seja a pessoa que está afirmando. A melhor maneira de não sermos enganados e controlados pelos outros é pensando por nós mesmos, tomando sempre o cuidado de saber que nós mesmos podemos estar nos enganando. É o único jeito de sermos livres.

Não são poucos os exemplos de crenças infundadas que, por causar medo desnecessário ou outras coisas piores, cerceiam a liberdade. No interior do Brasil ainda é possível achar vilas onde os moradores se desesperam ao verem um eclipse lunar por achar que há um monstro

engolindo a Lua, e a população inteira sai à rua batendo panelas para espantar o assassino do luar. Existe até hoje quem acredite que a cor da pele determina algum tipo de superioridade biológica ou social. Há quem ache que orientação sexual é falha de caráter. Nenhuma dessas coisas faz o mínimo sentido à luz de um pouco de raciocínio honesto, de um pouco de método científico. E esses são só uns poucos exemplos de preconceitos e ignorâncias que obscurecem a visão das pessoas. A utilidade maior do nosso trabalho como cientistas – não só os físicos, mas todos os cientistas que estão se formando aqui hoje – talvez seja, portanto, justamente esta: ajudar a dissipar um pouco dessas trevas. É a nossa obrigação – já dizia Carl Sagan – fazer da ciência uma vela no escuro.(…)” (André Luís Alves).

Aguardem. Eu retornarei.

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